Cante lá que eu canto cá

Francisco Carlos Carvalho de Melo

Patativa do Assaré é uma raridade produzida pela genialidade humana, cuja existência está marcada pela tragédia e toda sorte de privações. Apesar disso, sua poesia rendeu livros traduzidos em diversos idiomas, tornando-se tema de estudo na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal. O contexto da vida do poeta nordestino e um de seus versos inspira a analogia apresentada neste artigo, sobre a visão turva dos extremistas políticos brasileiros.

O gênio literário cearense perdeu o olho direito aos seis anos. Ficou órfão de pai aos oito anos e apenas aos doze anos de idade começou a frequentar a escola, por curto período de quatro meses. Quando faleceu, estava cego, sem audição e (ainda) pobre. Tragédias semelhantes são repetidas nos lares e nas vidas de milhões de brasileiros.

Patativa começou a fazer versos aos treze anos, privado do básico, sem acesso a educação formal e impossibilitado do convívio social ou acadêmico que, provavelmente, potencializaria suas habilidades. Inspirado no seu contexto de vida, a ambiência do sertão do Nordeste brasileiro, do alto da sua genial simplicidade, recitava: “Eu canto as coisas visíveis do meu querido sertão”.

Apesar da capacidade de perceber, sentir e denunciar a pobreza e a vida sofrida do nordestino, Patativa não perdeu a capacidade de enxergar o belo. “Pra todo canto que eu olho, vejo um verso se bulindo”, dizia.
Há poesia em tudo
Que se possa imaginar,
Basta apenas enxergar
Com a alma e, sobretudo,
Com o coração desnudo
Pra sentir que até dormindo
É possível ver surgindo
Poemas num quadro a óleo,
Pra todo canto que eu olho
Vejo um verso se bulindo.

Utilizamos esses versos para a analogia que ilustra a visão anuviada dos militantes políticos que, com olhar preconcebido, veem as coisas como querem que sejam. Os militantes de direita entoam: “para cada canto que eu olho, vejo um comunista se bulindo”, enquanto os militantes de esquerda bradam: “para cada canto que eu olho, vejo um fascista se bulindo”. Negam, mas não lhes falta ódio.

O poeta cearense tinha muitos os motivos para expressar rancor na sua poesia, devido às dificuldades que a vida e a sociedade lhe impuseram. É evidente sua indignação, ao denunciar o Brasil de cima e o Brasil de baixo. Mas, não há ódio. Sua condição não o impediu de perceber a beleza da natureza e das pessoas. Uma excelente lição para líderes políticos, militantes partidários e seus simpatizantes.

Segundo os postulados de cada vertente, o exercício do poder impede a prática democrática no comunismo, nazismo e fascismo. Por outro lado, nenhum espectro político tem o monopólio da democracia, havendo histórico de autoritarismo em todos eles. Ao mesmo tempo, há democratas à esquerda, à direita e no centro. Há democratas conservadores, moderados, liberais e progressistas.

No enredo político deste ano de 2020, os extremos constroem narrativas e desenham os adversários da forma como lhe convém. Disseminam o medo e a violência, física, psicológica, econômica e política, pintando os adversários como monstruosos inimigos da humanidade. Para todo canto que olham, veem demonstrações de racismo, homofobia, machismo, pedofilia, preconceito religiosos e ameaça à liberdade de expressão, são reais.

Com espírito crítico, prefiro a visão poética de Patativa do Assaré, a tentar revelar as coisas como elas são, nas dificuldades do dia-a-dia, nas agruras do brasileiro pobre e explorado, especialmente o nordestino. Muitas coisas continuam as mesmas e nem tudo mudou, desde que Patativa recitou: “cante lá que eu canto cá”.

Fontes de consulta:
DA SILVA, José Severino; FÉLIX, Idemburgo Pereira Frazão; LIMA, Jacqueline de Cássia Pinheiro. História e memória coletiva: O canto harmonioso e triste de Patativa do Assaré em versos de cordel. Disponível em < http://www.filologia.org.br/xvii_cnlf/cnlf/05/41.pdf >
FRAZÃO, Dilva. Patativa do Assaré, Poeta popular. Disponível em < https://www.ebiografia.com/patativa_assare/ >


Francisco Carlos Carvalho de Melo é Professor da UERN, Doutor em Administração, vereador em Mossoró/RN pelo Partido Progressistas e autor de Breve – Passagens sobre o tempo, o vento, as pessoas e a cidade.

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