Ciência com consciência (Parte II)

A ciência é a solução para quase todos os problemas da humanidade. Precisamos de ciência para proteger e melhorar a vida das pessoas. A pandemia de Covid-19, com todas as controvérsias sobre como é possível proteger e preservar as vidas de pessoas de todo o mundo, provocou a intensa utilização da palavra Ciência. É possível que em nenhum outro momento da história, essa palavra tenha sido tão pronunciado quanto neste ano de 2020. Com efeito, cientistas, iniciados em ciências e pessoas com pouca ou nenhuma formação passaram a utilizar o termo no seu cotidiano. A popularização da ciência, ou pelo menos do uso do termo, é excelente, mesmo que isso traga como apêndice incompreensões e até a negação.

Para avançar, a ciência aceita a crítica e a refutação. A exposição à crítica, termos de métodos e resultados, principalmente, provoca aperfeiçoamentos ou até revisão de enunciados. A ciência avança, aperfeiçoando ou até substituindo “verdades”. Essa característica a torna um contínuo processo de evolução. Sabendo disso, verdadeiros cientistas ou quem acredita na ciência, não condena a divergência ao “fogo do inferno”. Não é próprio da comunidade científica, adjetivar a crítica de idiota, insensível à vida ou até de genocida, quem, na honestidade do método, encontra resultados diferentes daqueles comumente aceitos ou esperados.

A discordância quanto a enunciados com base científica exige que o crítico recorra à ciência, por meio dos seus recursos teóricos e metodológicos. Ciência se combate com mais ciência, não com negação. Nesse aspecto, tanto obscurantistas, quanto seguidores cegos e maus propagadores, provocam danos ao avanço e a credibilidade da ciência. Quase tão ruim quanto negar a ciência, é dizer: “eu sigo a ciência”, conhece-la ou, pior, sem que ela tenha oferecido respostas que resistiram a critica e confirmadas por outros estudos.

O obscurantismo que marcou um período da idade média, conhecida como idade das trevas, leva a negação de explicações racionais e a perseguição de quem as defende. A ausência da razão conduz a explicações fantásticas, muitas vezes danosas a vida das pessoas, enquanto que as luzes da razão científica nos liberta do obscurantismo, da falta de instrução e da ignorância.

Maus defensores e propagadores da ciência, por outro lado, expõem sua credibilidade perante o grande público, ao usarem o termo “eu sigo a ciência” de forma ingênua. Pessoas com essas intenções defendem a ciência como a um dogma e seus enunciados como verdades irremovíveis. No extremo, outros acreditam e seguem esses pretensos defensores da ciência.

Além disso, existe a possiblidade de manipulação, uso ideológico da ciência e práticas obscurantistas, justamente por quem diz defender a ciência. É obscurantismo sufocar a diversidade de opiniões e ideias ou perseguir opositores. É anticientífico a manipulação e uso antiético de métodos, a distorção de resultados ou imposição prévia do que deve ou não ser estudado. Ciência deve ser contestada com ciência, não com narrativas.

No debate político, decisões erráticas e incoerentes são aplaudidas e defendidas por “seguirem a ciência”. Supostos defensores da ciência usam práticas obscurantistas para taxar opositores de anticientíficos e calar e argumentos contrários, sob o argumento de que “isso não é seguir a ciência”.

No mais, deixemos às religiões o espaço e a importância que lhe cabe. A renovar as forças, a fortalecer a esperança, a incentivar o amor ao próximo e a oferecer uma saída, quando tudo o mais falha. Respeitemos a fé e quem acredita no impossível desacreditado pela ciência.

—————————-

Francisco Carlos Carvalho de Melo é Professor da UERN, Doutor em Administração, vereador em Mossoró/RN pelo partido Progressistas e autor de Breve – Passagens sobre o tempo, o vento, as pessoas e a cidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao Topo